
Se alguém
morre, “é que Deus quis”, se alguém cura “foi Deus que fez”. E assim era, e
assim viveu, até uma noite de julho. O céu nublado trazia um tom estranho para
o inverno de Belo Horizonte. Nas ruas, um movimento todo em preto e branco,
listrado na vertical.
O dia que não passa, a hora que
não chega. O trabalho que não rende, o patrão que não entende.
No caminho da arena, carro e van,
ônibus e gente a pé, numa mistura estranha e improvável de tranquilidade e
leveza com engarrafamento.
O barulho da arquibancada, o soar
do tambor, o grito da garganta, rasgando a alma e transformando o peito em
caixa amplificada.
Passa um tempo e nada. O nosso
ateu, coitado, nem à oração pode recorrer. Recorre então a São Cuca e torce pra
que troque certo, pra que a luz da razão e sabedoria de Ronaldinho transforme
suor em gol.
GOL. Lágrima no olho, choro contido que deságua, peito sofrido
que aceita e acredita,... Ele acredita. Eu acredito, eles todos acreditavam.
Mas ai um grandalhão com jeito de
gladiador arranca na corrida, dribla o duas vezes salvador, e, com o gol
aberto, cai no gramado com um escorregão.
No campo o suspiro de alívio, no
coração do ateu: dúvida.
Afinal, não é possível. Ou é? Faz
sentido. Ou não?
GOL. Lágrimas nos olhos, choro incessante, peito aliviado de
quem acredita nos pés dos homens, mas não nas mãos de Deus.
Não?
Mas um gol tão no final. Isso lá
é coisa de gente?
Foi quando veio tudo na cabeça,
os pênaltis não marcados, o pé esquerdo do goleiro no último minuto, no último pênalti
da vida, o placar improvável que é revertido, duas vezes, os pênaltis que viram
vitória, o escorregão magistral do gol que não foi.
E aquilo virou luz. O choro de
vitória foi também choro de revelação. Ele existe. Deus existe. Estava em cada
bola, em cada gol, em cada defesa, em cada revés. Deus existe, ele entendeu, e
atleticanamente orquestrou a história para que esse fosse o mais épico, mais
incrível e improvável acerto de contas que o mundo do futebol já viu.
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