26.4.07

Operação Hurricane

Não meu caro leitor, não vou escrever sobre a queda das máscaras de parte do judiciário carioca. Não vou falar dos milhões de reais e dólares em dinheiro e bens descobertos, fruto de mesada de bicheiros e donos de bingos para que desembargadores vendessem liminares favoráveis ao jogo. Também não vou falar dos advogados, empresários e políticos corruptos que foram complacentes. Não há análise, há tristeza misturada à revolta. Mas não é disso que vou falar. Da Operação Hurricane eu trago à baila o seguinte foco: Como diabos se escolhem os nomes das operações realizadas pela Polícia Federal?

Será que eles avaliam como vai ser e depois dão o nome? Tipo Operação Anaconda? Ou será que eles escolhem o nome apontando o dicionário? Ou então será que eles mandam o chefe responder e pronto?

Eu imagino que as operações da PF são nomeadas em uma mesa de buteco. Happy hour, a turma reunida. Eis que alguém pergunta:

Ferreira: _ E aí Nogueira, como vai chamar aquela operação que a gente vai desmantelar os figurões?

Nogueira: _ Sei lá, tô de saco cheio de pensar nisso, passo pro Marques

Ferreira: _ Responsabilidade é sua Marques

Marques: _ Tudo bem, tudo bem... O que vocês acham de operação Robin Hood?

Ferreira: _ Que idéia infeliz, Marques, a gente já teve três operações com esse nome nos últimos quatro anos, além de que fica parecendo que a gente vai roubar o dinheiro e distribuir no complexo do Alemão, aliás, falando em Alemão e o Big Bro...

Nogueira: _ Cala essa boca Ferreira, nós estamos decidindo o nome da operação mais importante dos últimos vinte anos...

Ferreira: _ Mas e aquela outra do...

Nogueira e Marques: _ Cala a boca Ferreira.

Ferreira: _ Tá bom

Nogueira: _ Bom, a gente podia chamar de operação Desmame, hahahaha

Marques: _ Hahahaha

Ferreira: _ Hahahaha, boa Nogueira...

Nogueira: _ Agora sério, podia ser um nome tipo Katrina,... Operação Katrina, por causa do furacão, lembram?

Marques: _ Gostei do Katrina, a gente ta demolindo geral mesmo...

Ferreira: _ Porque a gente não chama de operação furacão?

Marques: _ Faz sentido, mas já num teve uma dessas?

Nogueira: _ Era operação arrastão.

Marques: _ Teve aquela dos deputados, era Furacão, mas num terminou nem em ventinho.. Hahaha

Ferrreira: _ Hahahahaha

Nogueira: _ Hahahahaha

Marques: _ Tive uma idéia, como fala furacão em inglês?

Ferreira: _ Acho que é alguma coisa tipo big wind, lembra da operação wind?

Nogueira e Marques: _ Cala a Boca Ferreira

Ferreira: _ Tá bom!

Marques: _ Não, não... É tipo Wind of destruction

Nogueira: _ Isso não é o nome de um filme do Chuck Norris?

Ferreira: _ Hahahahaha

Marques: _ Hahahahaha

Nogueira: _ Hurricane

Marques: _ O que?

Nogueira: _ Furacão em inglês, é Hurricane

Marques: _ Operação Hurricane,.... O chefe vai adorar!

Nogueira: _ Vai mesmo, vai ficar sonoro na televisão...

Ferreira: _ Ainda preferia Robin Hood

Nogueira e Marques: _ Cala a boca Ferreira

27.3.07

Os mil do Baixinho

Pessoal, mais uma da minha coluna "Chute a Gol", que escrevo com peridiocidade indefinida para o site www.showdebola.com.br
Quem quiser ler mais sobre futebol é só acessar o link colunas e ir em chute a gol que tem todos os meus textos lá... abraços



Eu nunca escrevi nada sobre Romário. Não me acho à altura dele, sem trocadilhos. Mas como deixar passar toda a polêmica e o alvoroço no mundo da bola em função dos seus mil gols? Como abandonar assunto tão fértil? Será que sou capaz de abandonar o desejo de falar ao digníssimo leitor em razão de minha ideologia? Não sou. O Romário merece mais que eu, mas vou escrever assim mesmo.

É bobagem dizer que ele foi o grande do seu tempo, o rei da grande área, o gênio do chute de bico. Ele foi isso tudo e mais, muito mais. Carregou o Barcelona nas costas, foi campeão do mundo quase sozinho, voltou ao Brasil para meter gol jogando por todos os grandes do Rio (menos o Botafogo), criou polêmica ao ser cortado na Copa de 98, chorou lágrimas suspeitas para ser convocado para o mundial de 2002, pintou o Zagallo na latrina enquanto Zico segurava o papel higiênico, foi para os Estados Unidos – deitou e rolou, foi para a Austrália – nem deitou nem rolou, ameaçou jogar pelo Tupi de Juiz de Fora – foi impedido pela FIFA.

Então o baixinho declarou a luta incessante pelo milésimo gol. Gol que é contestado pelas mídias mais sérias. Ele contabiliza alguns em amistosos sem juiz, outros como infantil e juvenil... E chegou ao número 999 no último fim de semana, jogando contra o Flamengo.

Tudo bem que ele exagera na contabilidade de tentos. Tudo bem que ele já não seja mais o Romário de outrora... mas, cá ente nós, nunca vi um jogador de 41 anos fazer gols como ele. Contra o Madureira foram três, um de cabeça, inclusive. Existem pessoas que dizem que o Romário só marca gols fáceis hoje em dia. Amigão, não existe gol fácil. O futebol profissional não deixa espaço para esse tipo de coisa. Se fosse assim, pelo menos os gols fáceis o Rômulo do Cruzeiro (que eu considero bom jogador) teria feito. Ou o Amoroso não passaria tanto tempo em branco pelo Corinthians. O Romário é um gênio, e precisa ser respeitado como tal.

A Placar deste mês saiu com uma informação inédita. Se forem contados apenas jogos oficiais, Romário está a exatos três gols de passar Pelé em números absolutos. O Baixinho merece o recorde.

Longe de mim defender o comportamento de Romário fora de campo, ou valorizar sua marra e o exemplo que ele é, não só para o profissionalismo no futebol como para os jovens de forma geral, mas é hora do Brasil se dobrar e assumir: Romário marcou quase três vezes mais gols que Maradona, deu mais chapéus em dois anos que o Zidane na carreira inteira, marcou mais gols de bico que o Adriano de qualquer jeito e nunca precisou de correr muito pra isso. Ele foi único. Porque decidiu chegar até os 41 jogando, e por isso contestado, não nos cabe avaliar os últimos seis anos de sua carreira e generalizar para todo o resto. É hora de assumirmos os feitos de um dos maiores da história, possivelmente o maior que eu vi jogar. Romário é grande, baixinho, eu sei, ainda assim, mais que grande, Romário foi gigante.

Alexandre Abramo, jornalista, assessor de imprensa de jogador de futebol e se dobra à genialidade do carioca, marrento e baixinho mais bem sucedido do Brasil.

20.3.07

Mais uma metáfora da vida

Ela tinha 15 anos quando viu pela primeira vez aquele cachorrinho na rua. Tão surrado e sujo que chegava a dar dó. Os pêlos embolados do rabo, naquela mistura de vira-lata com vira-lata. Mas como era inteligente aquele cachorro! Esperava o sinal abrir, os carros pararem e atravessava na faixa de pedestres, esbanjando classe e um grau de civilidade que poucos homens ao redor demonstravam.

Ela não pôde resistir à simpatia dele e passou a dar comida a ele todos os dias. Era aquele pãozinho velho, ou uma banana já madura demais. E o cãozinho, satisfeito, lambia os beiços e, ao contrário do que ela imaginara, seguia seu caminho, com uma abanada de rabo de agradecimento e nada mais. Toda aquela educação do vira-lata cativava a menina.

Onde já se viu vira-lata que não pede mais comida?
E os anos foram passando, e aquela relação se estreitando. Era o resto do almoço ou do café da manhã, não importava, todos os dias às 11h ele aparecia na porta de casa, com aquela cara esperta e educada. E seguia seu rumo, aos afazeres de vira-latas.

Foi assim até o vigésimo primeiro ano dela. Naquele dia ele não apareceu.

Ela saía para uma entrevista de emprego. Uma realmente importante. Em uma grande empresa, um sonho para qualquer estudante. Mas ela não tinha muita certeza se era isso o que queria. Sabe aquele frio na barriga que deixa uma dúvida enorme? Se o caminho certo é esse ou aquele? Mas ela precisava tentar, tentar para não se arrepender. Até que, no caminho, ela viu o cachorrinho caído na faixa de pedestres, com a pata machucada, na rua, prestes a ser atropelado. Provavelmente já atingido por algum motorista furando sinal.

Em um momento de tristeza veio a imagem da sala de entrevistas e do possível emprego, em seguida a do cachorrinho morto, atropelado por um motorista qualquer. Viu o olhar perdido dele e lembrou daquela frase batida que sua mãe e avós repetiam. Aquela frase já surrada de tanto ser usada, mas absolutamente verdadeira, do Pequeno Príncipe: “Tu te tornas eternamente responsável pelo que cativas”. Arregaçou as mangas do elegante tailler, tirou o cachorrinho da rua e o levou ao veterinário.

Foi uma decisão. Nem certa nem errada, só uma decisão. Seguir para a entrevista podia parecer tentador, mas seu coração não deixou. E ela soube, naquele momento, que não tinha feito nada errado. Era simplesmente um opção de vida.

Porque no fundo do coração, naquela parte de alma que razão nenhuma alcança, naquilo que nos faz realmente humanos, mesmo sem querer, ela sabia: A vida tinha lhe aberto uma chance. A chance de começar tudo de novo. E racionalidade nenhuma podia vencer aquele sentimento.

2.2.07

O Fazedor de Ovo Frito, um conto sobre a simplicidade

Ele era um fazedor de ovos fritos. O legítimo. Desde os quatro anos que sua mãe, irresponsavelmente, deixou-o à beira do fogão a admirar o preparo. A casca sendo quebrada, a clara e a gema caindo, o shhhhh da frigideira, o sal atirado, e o resultado, delicioso. Aos cinco já cozinhava sozinho, aos sete era especialista, aos quinze perfeccionista, aos 17 era o deus do ovo frito.

Ao quebrar a casca, fazia um movimento raro com as mãos, quase imperceptível. Normalmente preferia usar a colher para abrir o ovo, mas poderia fazê-lo em qualquer lugar. A rachadura na fina casca era perfeita, como se tivesse sido feita com régua e lápis. Separava o ovo em duas partes idênticas. Com os dedos do meio cuidava para que nenhum pedacinho sobrasse na frigideira. Deixava dourar o tempo perfeito, salpicava o sal fazendo parecer um golpe de ninjitsu, e ai virava o ovo por sete segundos. Sete segundos e nada mais. E estava pronto. O mais simples, saboroso e perfeito ovo frito.

Desprezava omeletes. Dizia que o queijo prejudicava a cor e o sabor da gema. Devia estar certo.
Decidiu abrir um restaurante aos 24. Aos 27 estava rico, tinha o melhor chef da cidade, o melhor atendimento, os pratos mais sofisticados. Porém, o mais importante da casa, e o mais pedido todas as noites era o ovo frito que preparava.

Foi então que um especialista em gastronomia de uma universidade francesa, que não era Sorbonne, veio ao seu restaurante. Pediu um ovo frito. Comeu e, um mês depois, deu quatro estrelas para aquele restaurante peculiarmente brasileiro.
Foi demais para ele. Largou o restaurante, abandonou sua casa, ignorou deveres e bens e sumiu. Dizem que faz ovos fritos para crianças mutiladas de Serra Leoa, atualmente.

Aquele era um homem de valor. Ele sabia que, por mais pomposo que parecesse o mundo, era na simplicidade que residia o grande sabor da vida. Era no detalhe. E, cá entre nós, a simplicidade é uma virtude que não pode ser medida em estrelas.

26.1.07

O sofrimento (e não tem nada a ver com futebol)

Eu nunca imaginei que pudesse sofrer assim.

Por mais que eu seja um cara das ciências humanas, que seja absolutamente voltado para as paixões e as emoções que a vida traz, a linearidade me tranqüiliza. Gosto de ter o destino em minhas mãos. Gosto de acreditar que sou dono das minhas ações e das conseqüências que elas trazem.

É como se minha vida fosse um balão cheio d’água preso por um fio de naylon. Eu seguro sempre a ponta deste fio. Por mais que o balão viaje de um lado para o outro, sei que tenho aquela pontinha sempre em minhas mãos. Por mais longe que o balão vá, eu sei que posso trazê-lo de volta.

Mas existem alguns momentos da nossa vida, quando passamos por alguma razão a dividir com outras pessoas a ponta do fio de naylon, em que as coisas deixam de estar no seu controle. Acredito que passamos este fio às mãos de nossos familiares, às vezes. Entregamos a alguns amigos, poucos, é verdade. Às vezes fazemos a loucura de entregá-lo a uma pessoa por causa de trabalho. Mas poucas vezes entregar a sua vida nas mãos de alguém é mais danoso do que quando se entrega a alguém que você ama.

Acredito que, quando damos o fio de naylon a alguma grande paixão, é quando mais nos desprendemos. É quando fechamos os olhos e nos jogamos naquele imenso abismo do tempo e da realidade. E fazendo isso, cedo, tarde ou, com sorte, nunca, aquela pessoa pode largar o fio de naylon, e aí meu amigo, é torcer para o balão não estourar quando se encontrar com o chão.

Todo mundo já teve seu momento de queda livre. Eu tive o meu. O balão não estourou, mas agora estou com medo de voltar a entregar o fio de naylon nas mãos de alguém, ao menos por enquanto.

Peço desculpas pelo desabafo, meu blog nunca foi pra isso. De todo jeito, este é um texto sincero, e acredito que só meus amigos lêem estes escritos atualmente. Gostaria que todos vocês soubessem como me sinto. E obrigado pela força de sempre.

19.12.06

Ronaldinho Gaúcho e a Ditadura da Mídia

Fabio Cannavaro, zagueiro do Real Madrid e capitão da seleção italiana de futebol é o melhor do mundo em 2006. Eleito pela FIFA, o defensor acumula os dois principais prêmios internacionais do futebol, esse e o da revista France Football, que sabe-se lá porque é tão respeitado.
Foram 498 pontos contra 454 de Zinedine Zidane e 380 de Ronaldinho Gaúcho. Eu fui o primeiro a pedir Cannavaro como o melhor da copa. Acho que ele foi soberbo, espetacular. Mas daí a ser eleito o melhor do mundo do ano vai-se um caminho enorme. É fácil desfazer, com dados, as opções da FIFA.
Cannavaro teve um bom primeiro semestre, a Juventus teve uma média baixa de gols sofridos. Mas ficou comprovado que não foi só competência de sua defesa. Envolvida em maracutaias que fariam Edílson Pereira de Carvalho corar, a Velha Senhora (como carinhosamente é chamada a Juventus) foi rebaixada para a segunda divisão do campeonato italiano. Fica claro que não foi só a competência de Cannavaro e Buffon que impediram os adversários de fazerem gols. O Segundo semestre de Cannavaro começou muito bem. Foi um mês raro, daqueles para se lembrar. Uma copa impecável. E aí veio o Real Madrid e atuações apagadas. Considero um ano um tanto irregular para se fazer de Cannavaro o melhor do mundo.
Quanto a Zidane parece piada ele terminar em segundo. Aliás, parece piada ele concorrer. Depois de um primeiro semestre sofrível em que o Real Madrid colecionou insucessos levando o veterano Zidane à reserva antes do meio de temporada, veio a Copa do Mundo. Zidane fez dois belos jogos, contra Espanha e Brasil, e deitou no berço esplêndido da fama para ser eleito o melhor da Copa. Ainda encerrou sua história no futebol com uma cabeçada no zagueiro italiano Materazzi. Expulso de campo declarou terminados seus dias no futebol. E não jogou mais no segundo semestre.
Fazer dessas duas figuras os dois melhores do ano é piada de péssimo gosto. Cannavaro ainda vá lá, façamos vistas grossas à interferência da arbitragem e dos próprios jogadores em campo, mas Zidane?
Tal decisão, em verdade, teria levantado pouca discussão se não tivesse ficado em terceiro lugar o gênio Ronaldinho Gaúcho. Com um ano quase impecável, só pôde ter sua jornada contestada no mês da Copa do Mundo. No resto do ano foi indiscutível. Foi campeão espanhol carregando o Barça nas costas, campeão da Copa dos Campeões sendo o principal jogador de sua equipe, voltou para o segundo semestre depois da copa com a mídia olhando de nariz torto para o seu talento e voltou a calar a todos com atuações fora do comum.
Tradicionalmente a mídia decide esse tipo de escolha. A pressão da imprensa internacional é forte em demasia. Foi assim com Zidane que foi endeusado depois do jogo espetacular que fez contra o Brasil na Copa. Ele é um dos marcos da história do futebol recente, eu concordo, mas teve um ano pífio, se analisado por inteiro. Quanto a Cannavaro, bastou ter a Itália campeã com um autêntico ferrolho, sem grandes estrelas aparentes do meio para a frente (Totti se machucou), para procurarem na defesa uma alternativa e tentar fazer justiça a todos os grandes defensores deixados de lado na história dos prêmios mundiais.
É uma pena, Ronaldinho foi o melhor do ano. Ao lado dele eu elegeria Kaká e Pirlo, talvez tendesse a escolher Makelele, sempre esquecido nos meios de campo em que atua. Cannavaro ficaria entre os dez melhores, Zidane não entraria no top 30.
Patético o papel pouco analítico da mídia futebolística mundial. Vendo decisões como esta, me convenço que a tendência persegue o meio. Se em Belo Horizonte vemos absurdos como Fábio sendo eleito melhor goleiro do ano em Minas, no nacional vemos Rogério Ceni sendo eleito o melhor jogador do campeonato e Wagner o melhor meia, é natural que Zidane seja o segundo melhor do ano. Quem não sabe nada de futebol sou eu.

Alexandre Abramo, jornalista radicado em Três Marias, assessor de imprensa de jogador de futebol acredita que um mundo que tem Ronaldinho Gaúcho não precisa de Cannavaro.

30.11.06

Mudar pro interior me fez diferente. Eu até já morei no interior, mas no interior dos Estados Unidos. Além de ser deserto e de ter muito mexicano, tem Mc Donald´s pra todo lado, o que tira a característica pura do nosso interior.
Viver aqui tem me feito bem. Eu, um cara urbano até o osso, menino de apartamento (que nunca morou em apartamento), tive que vir me encontrar com o que há de mais precioso e aflitivo em morar fora de casa. A solidão, a paradeira e o mato. Como tem mato. Mato pra todo lado, árvore, cerrado, cobra (dizem), lagartixas do tamanho de um dragão, bem nutridas pelos insetinhos, insetinhos estes bem menos irritantes que os da cidade.
Não é o mato que me faz alguém melhor, é a solidão. Solidão é uma palavra meio triste, não é essa a idéia. É o viver só de pensar na vida, avaliar os valores. É o viver só de saborear os momentos, saborear os meus momentos. É dormir cedo, já que não tenho mais nada pra fazer, ninguém pra conversar, sem internet pra ocupar o tempo em que deveria estar dormindo. Consequentemente não tem essa de dormir 4 horas numa noite, não existe fazer as coisas de última hora. Tem trabalho, e o trabalho definitivamente enobrece o homem.
Eu moro na cidade em que Guimarães Rosa iniciou a sua busca pelo grande Sertão, bem do ladinho das veredas que ele apregoou pro mundo inteiro. Escuto o povo falar mineirês mais mineiro que qualquer Minas Gerais do Universo. E, surpreendentemente, adoro cada coisinha. Talvez por estar tão perto de Guimarães, tenha me tornado um cara mais confuso, confuso no dizer, mais simples no viver. Minha cabeça voa à altura de urubuir, e quero escrever o tempo todo. Quero dar pitaco em tudo, quero fingir de escritor, quero brincar de inteligente. Acima de tudo eu quero ser eu mesmo, coisa que, às vezes, na cidade grande, sem entender direito por que, a gente não consegue.