O Pitacos e Relatos é um blog que pretende tratar de política além de um pouquinho de futebol e outro tanto sobre o nada. Há anos venho moldando o formato e agora ele é bem definido, do jeito que eu queria,... uma zona. Assim como ele começou, espero que não mude nunca. Você é bem vindo, pitaque sobre os meus pitacos, a casa é sua.
28.8.13
Contos/Crônicas da vida real - Rum
26.1.11
Uma nota de cinquenta reais
Ao bater os olhos nela veio o tal sentimento que me trouxe a esse texto. Primeiro uma excitação rápida: Opa, ganhei essa grana. Em seguida, ao ver uma moça que aparentemente tinha ido buscar um outro produto voltar à boca daquele caixa, a frustração: Putz, ela vai pegar minha grana. Bem, ela não pegou.
Nesse momento, em poucos instantes, eu recriava a história da identidade brasileira em minha mente.
O dinheiro não era meu, talvez fosse daquela dona, talvez não. Com toda honestidade, não sou nem nunca fui nenhum santo. Entretanto, me orgulho de ser um cara com retidão moral e ética. Fui criado para ser assim e gosto de ser assim. Não me traz sofrimento ser passado para trás quando tenho certeza de que minha ação se pauta na honestidade. Posso ser um otário, mas sou um otário que tem certeza de que ser otário é a opção mais correta.
Só que o meu impulso ao ver aquela nota de cinqüenta reais foi de tomá-la sorrateiramente e seguir em frente.
Cerca de dois minutos se passaram e o sentimento aprofundou-se. Àquela altura ainda pensava qual seria a conduta correta a seguir: cutucar a dona, perguntar se era dela aquele dinheiro? Ou pegar e usar? Ou ainda pegar e doar? Entregar o dinheiro para a caixa para quando o dono voltasse para buscar?
E o impulso de guardá-la em minha carteira?
Afinal de contas eu sou, como penso, uma pessoa boa?
Se eu fosse de fato bom estaria precisando passar por aquela reflexão? Uma pessoa realmente boa não teria o impulso de simplesmente entregar o dinheiro a alguém e seguir em frente?
Complexo, muito complexo.
Chegou minha vez, no caixa ao lado.
Paguei a compra com os meus cinqüenta reais, que ganhei trabalhando duro em Juiz de Fora, minha nova casa.
Passando ao lado da moça que escondia, mal sabia ela, cinqüenta reais em sua frente, toquei-a no ombro e disse:
_ Senhora, tem uma nota de cinqüenta reais na sua frente.
E ela:
_ Olha, é mesmo! Será que caiu da minha bolsa?
Pela resposta eu já percebi que não passava pela cabeça dela a mesma reflexão moral que passava pela minha. O dinheiro não era dela, e ela iria embolsá-lo. Olhei para o caixa e vi num panfleto a simpática baleia, símbolo de um hospital em Belo Horizonte que já me recebeu como voluntário, vestido de palhaço para alegrar as crianças com câncer lá pelos meus 17 anos.
_ Caso não seja da senhora, doe para o Hospital da Baleia.
Segui meu rumo sem olhar pra trás. Não queria ver nos olhos dela a esperteza marota do brasileiro corrente e me indignar.
A dúvida continua. Eu sou bom por natureza ou sou como qualquer espertalhão? Talvez seja um espertalhão com alguns valores incrustados na base da porrada ao longo da vida.
Uma coisa é fato, fui embora de consciência tranqüila, mas com uma pulga atrás da orelha.
Eu sou um otário. Isso já disse desde o começo. Posso ter dúvidas se sou ou não uma pessoa boa, mas isso por si só já é suficiente para ser o tipo de otário que dorme em paz todas as noites.
23.7.09
Minha profissão: O intangível
Tenho 26 anos e já rodei um bocado no tal do mercado de trabalho. Passei por diversas empresas trabalhando com a intangibilidade. Esse treco complicado, que pouca gente sabe explicar o que é. Aquilo que não se vê, que não se toca, mas que sabemos ser importante e determinante na relação das pessoas.
Hoje, morando sozinho no interior, me dei ao luxo de pensar, por um tempo, enquanto arrumava minha casa, aonde começou a minha história com o intangível.
Não foi muito difícil chegar lá. Estudei no Colégio Loyola, formação jesuíta, cheia de valores, deveres e um bocado de intangibilidade.
Na escola, o intangível começava pelas minhas aulas de Química e Matemática. Coisa distante aquelas aulas. Não pelos professores, neles a minha relação era muito próxima e sadia, mas as disciplinas... Acho engraçado chamarem as matérias que estudamos de disciplinas. Acho muito adequado. Deve ser porque só aprende direito quem tem disciplina. Eu não tinha.
Eu gostava de aprender o que estava por trás de cada história. Quando um professor de física explicava alguma coisa, não queria aprender o que ele escrevia no quadro, queria saber quem era aquele professor, quais eram suas agonias, suas tristezas, seus anseios, suas realizações, alegrias. Esse desejo de me relacionar me levou a viver as atividades espirituais que a escola oferecia. Isso ajudou a formar o meu caráter, meu jeito de enxergar as coisas e...
voilà, escolher minha profissão: gestor do intangível.
Hoje é fácil dizer que acertei na mosca. Minha carreira se desenvolveu, tenho ido relativamente bem, e isso me enche de orgulho. Mas ainda não sei direito explicar o que eu faço. Sou pago para gerir o que as empresas sabem que existe, mas não têm certeza de como tratar. Afinal, opiniões, posições, discussões, podem ser postas numa planilha, mas isso, inevitavelmente, terá pouca efetividade.
As empresas me contratam porque o intangível não se aprende na faculdade. Esse tipo de coisa se estabelece a partir da sua relação com as pessoas e com o mundo. Desenvolvem-se métodos, métricas, fórmulas e DISCIPLINAS sobre o assunto. Mas o intangível é maior. Ele não cabe num pote, nem numa sala de aula, ele extrapola. Ele vai além.
Essa forma de enxergar o mundo me permitiu uma profissão e uma relação muito especial com Deus.
Você, caro leitor, deve achar que escrevi tudo isso para chegar ao final dizendo que a relação com Deus é intangível, um clichê sem tamanho. Mas se enganou. Intangível é a fé. É o que nos move a nos relacionar com Deus. A relação, em si, esta é tangibilíssima. Ela está aqui, no meu coração, eu a toco todos os dias, todas as horas, minutos e segundos. Vejo o amor de Deus em todas as coisas. Isso pode ser tocado, mas não pode ser medido.
E estou eu de volta ao princípio.
Te disse que intangibilidade era um treco complicado!
17.6.08
O menino que tinha medo do novo.
Chegava a noite, apagavam-se as luzes, e ele se metia debaixo da cama com medo do que viria.
_ É medo de monstro, dizia a mãe.
_ É frescura de menino, dizia o pai.
Nem medo nem frescura. O que o menino tinha era receio do novo. Era não saber se, quando acordasse, as coisas ainda estariam ali, do jeito que ele conhecia. E aí, se não estivessem, como suas piadas teriam graça? Como o seu sorriso iria brilhar?
Mas então veio a tempestade. A tempestade que varreu a cidade. Era uma noite de junho, estranho chover em junho...
De ponta a ponta, água que não acabava mais. Ele debaixo da cama, com medo do que viria.
E aí veio a luz do raio seguida pelo barulho do trovão.
E no meio da noite, no nada absoluto, ele viu o clarão. E foi então que ele entendeu que, mesmo no momento mais escuro, se ele soubesse olhar, haveria luz.
As encruzilhadas estão aí, a novidade também. Não é preciso ter medo da novidade. Ela vem para o bem, ela vem para mostrar o caminho, ela vem para o progresso.
Não há razão para não inovar. Não há razão para temer o escuro porque é nele que somos obrigados a tecer o futuro.
16.4.08
A Moça com Olhos de Deus
Até onde o céu enxergava, só era nuvem.
Nuvem mesmo, no singular, porque era uma coisa só.
Como se não existisse céu além. A moça, pobre no jeito de vestir, simples no jeito de olhar, caminhava com o olho atento no ir e vir das luzes do relâmpago. Aquele trovejar forte, pra quem tem ouvido fraco era tortura, mas pra quem tem os ouvidos do coração é sinfonia de vida.
Na secura dos idos de junho, um céu como aquele era de dar arrepio.
Arrepio mesmo, no singular, porque era uma coisa só.
Voltemos à moça então. Ela não tinha muito dinheiro, isso já está claro. E tinha sido exatamente por isso que ela estava ali, olhando pro céu, com os olhos carregados de lágrima.
Lágrima mesmo, no singular, porque era uma coisa só.
Foram três dias de faxina pesada na casa da dona da esquina Barcelos, de gente fina. Trabalho duro de quem quer vencer, mas não estudou nem foi criada pra ganhar bem. Na vila em que ela morava, trabalhar duro era praxe, mas muita mulher fazia a opção fácil de se vender para pagar as contas. Até porque aquele amontoado de mulher pobre não tem o direito de guardar o que é delas por direito. Sobra de opção entregar o único bem que têm, o corpo.
Corpo mesmo, no singular, porque era uma coisa só.
Então ela saiu da casa, com a perna doce de cansada, com os braços ardidos de trabalho, com o lombo doendo de curvada, e entrou no super mercado. Nem tinha reparado que a calça batida e a blusa rasgada lhe davam aquele ar de quem mora na rua. Foi entrar e tomar o puxão pelo braço. O segurança, senhor da truculência, casado com uma moça igual a ela, só que sem a blusa rasgada, correu pra tirá-la dali, antes que o chefe percebesse e lhe desse outra sentada.
Jogou a moça pra fora sem se fazer de rogado. Bateu uma pontinha de amargura, lembrou das outras cinco vezes em que fizera aquilo no mês, pensou na cara quase sempre igual de quem sofre com o desprezo, e sentiu, história por história, várias pontadas de arrependimento.
E aí, definitivamente é no singular, porque arrependimento é uma coisona só.
Ela levantou então da calçada que caíra, olhou pro céu e viu aquela nuvem do arrepio, sentiu a lágrima escorrer no corpo, mas a lágrima virou, quase que do nada, de tristeza pra emoção. Ela não arrependeu de ser o que era.
Porque na vida daquela moça sem jeito, sem graça para o mundo e sem valor pra quem é rico, olhar para o céu com os olhos de Deus, sentir a chuva bater no rosto, com o vento soprando o ar da liberdade nos ouvidos, era um conjunto divino de realização.
Realização mesmo, no singular, porque era uma coisa só...
26.4.07
Operação Hurricane
Será que eles avaliam como vai ser e depois dão o nome? Tipo Operação Anaconda? Ou será que eles escolhem o nome apontando o dicionário? Ou então será que eles mandam o chefe responder e pronto?
Eu imagino que as operações da PF são nomeadas em uma mesa de buteco. Happy hour, a turma reunida. Eis que alguém pergunta:
Ferreira: _ E aí Nogueira, como vai chamar aquela operação que a gente vai desmantelar os figurões?
Nogueira: _ Sei lá, tô de saco cheio de pensar nisso, passo pro Marques
Ferreira: _ Responsabilidade é sua Marques
Marques: _ Tudo bem, tudo bem... O que vocês acham de operação Robin Hood?
Ferreira: _ Que idéia infeliz, Marques, a gente já teve três operações com esse nome nos últimos quatro anos, além de que fica parecendo que a gente vai roubar o dinheiro e distribuir no complexo do Alemão, aliás, falando em Alemão e o Big Bro...
Nogueira: _ Cala essa boca Ferreira, nós estamos decidindo o nome da operação mais importante dos últimos vinte anos...
Ferreira: _ Mas e aquela outra do...
Nogueira e Marques: _ Cala a boca Ferreira.
Ferreira: _ Tá bom
Nogueira: _ Bom, a gente podia chamar de operação Desmame, hahahaha
Marques: _ Hahahaha
Ferreira: _ Hahahaha, boa Nogueira...
Nogueira: _ Agora sério, podia ser um nome tipo Katrina,... Operação Katrina, por causa do furacão, lembram?
Marques: _ Gostei do Katrina, a gente ta demolindo geral mesmo...
Ferreira: _ Porque a gente não chama de operação furacão?
Marques: _ Faz sentido, mas já num teve uma dessas?
Nogueira: _ Era operação arrastão.
Marques: _ Teve aquela dos deputados, era Furacão, mas num terminou nem em ventinho.. Hahaha
Ferrreira: _ Hahahahaha
Nogueira: _ Hahahahaha
Marques: _ Tive uma idéia, como fala furacão em inglês?
Ferreira: _ Acho que é alguma coisa tipo big wind, lembra da operação wind?
Nogueira e Marques: _ Cala a Boca Ferreira
Ferreira: _ Tá bom!
Marques: _ Não, não... É tipo Wind of destruction
Nogueira: _ Isso não é o nome de um filme do Chuck Norris?
Ferreira: _ Hahahahaha
Marques: _ Hahahahaha
Nogueira: _ Hurricane
Marques: _ O que?
Nogueira: _ Furacão em inglês, é Hurricane
Marques: _ Operação Hurricane,.... O chefe vai adorar!
Nogueira: _ Vai mesmo, vai ficar sonoro na televisão...
Ferreira: _ Ainda preferia Robin Hood
Nogueira e Marques: _ Cala a boca Ferreira
20.3.07
Mais uma metáfora da vida
Ela não pôde resistir à simpatia dele e passou a dar comida a ele todos os dias. Era aquele pãozinho velho, ou uma banana já madura demais. E o cãozinho, satisfeito, lambia os beiços e, ao contrário do que ela imaginara, seguia seu caminho, com uma abanada de rabo de agradecimento e nada mais. Toda aquela educação do vira-lata cativava a menina.
Onde já se viu vira-lata que não pede mais comida?
E os anos foram passando, e aquela relação se estreitando. Era o resto do almoço ou do café da manhã, não importava, todos os dias às 11h ele aparecia na porta de casa, com aquela cara esperta e educada. E seguia seu rumo, aos afazeres de vira-latas.
Foi assim até o vigésimo primeiro ano dela. Naquele dia ele não apareceu.
Ela saía para uma entrevista de emprego. Uma realmente importante. Em uma grande empresa, um sonho para qualquer estudante. Mas ela não tinha muita certeza se era isso o que queria. Sabe aquele frio na barriga que deixa uma dúvida enorme? Se o caminho certo é esse ou aquele? Mas ela precisava tentar, tentar para não se arrepender. Até que, no caminho, ela viu o cachorrinho caído na faixa de pedestres, com a pata machucada, na rua, prestes a ser atropelado. Provavelmente já atingido por algum motorista furando sinal.
Em um momento de tristeza veio a imagem da sala de entrevistas e do possível emprego, em seguida a do cachorrinho morto, atropelado por um motorista qualquer. Viu o olhar perdido dele e lembrou daquela frase batida que sua mãe e avós repetiam. Aquela frase já surrada de tanto ser usada, mas absolutamente verdadeira, do Pequeno Príncipe: “Tu te tornas eternamente responsável pelo que cativas”. Arregaçou as mangas do elegante tailler, tirou o cachorrinho da rua e o levou ao veterinário.
Foi uma decisão. Nem certa nem errada, só uma decisão. Seguir para a entrevista podia parecer tentador, mas seu coração não deixou. E ela soube, naquele momento, que não tinha feito nada errado. Era simplesmente um opção de vida.
Porque no fundo do coração, naquela parte de alma que razão nenhuma alcança, naquilo que nos faz realmente humanos, mesmo sem querer, ela sabia: A vida tinha lhe aberto uma chance. A chance de começar tudo de novo. E racionalidade nenhuma podia vencer aquele sentimento.
2.2.07
O Fazedor de Ovo Frito, um conto sobre a simplicidade
Ao quebrar a casca, fazia um movimento raro com as mãos, quase imperceptível. Normalmente preferia usar a colher para abrir o ovo, mas poderia fazê-lo em qualquer lugar. A rachadura na fina casca era perfeita, como se tivesse sido feita com régua e lápis. Separava o ovo em duas partes idênticas. Com os dedos do meio cuidava para que nenhum pedacinho sobrasse na frigideira. Deixava dourar o tempo perfeito, salpicava o sal fazendo parecer um golpe de ninjitsu, e ai virava o ovo por sete segundos. Sete segundos e nada mais. E estava pronto. O mais simples, saboroso e perfeito ovo frito.
Desprezava omeletes. Dizia que o queijo prejudicava a cor e o sabor da gema. Devia estar certo.
Decidiu abrir um restaurante aos 24. Aos 27 estava rico, tinha o melhor chef da cidade, o melhor atendimento, os pratos mais sofisticados. Porém, o mais importante da casa, e o mais pedido todas as noites era o ovo frito que preparava.
Foi então que um especialista em gastronomia de uma universidade francesa, que não era Sorbonne, veio ao seu restaurante. Pediu um ovo frito. Comeu e, um mês depois, deu quatro estrelas para aquele restaurante peculiarmente brasileiro.
Foi demais para ele. Largou o restaurante, abandonou sua casa, ignorou deveres e bens e sumiu. Dizem que faz ovos fritos para crianças mutiladas de Serra Leoa, atualmente.
Aquele era um homem de valor. Ele sabia que, por mais pomposo que parecesse o mundo, era na simplicidade que residia o grande sabor da vida. Era no detalhe. E, cá entre nós, a simplicidade é uma virtude que não pode ser medida em estrelas.
30.11.06
Viver aqui tem me feito bem. Eu, um cara urbano até o osso, menino de apartamento (que nunca morou em apartamento), tive que vir me encontrar com o que há de mais precioso e aflitivo em morar fora de casa. A solidão, a paradeira e o mato. Como tem mato. Mato pra todo lado, árvore, cerrado, cobra (dizem), lagartixas do tamanho de um dragão, bem nutridas pelos insetinhos, insetinhos estes bem menos irritantes que os da cidade.
Não é o mato que me faz alguém melhor, é a solidão. Solidão é uma palavra meio triste, não é essa a idéia. É o viver só de pensar na vida, avaliar os valores. É o viver só de saborear os momentos, saborear os meus momentos. É dormir cedo, já que não tenho mais nada pra fazer, ninguém pra conversar, sem internet pra ocupar o tempo em que deveria estar dormindo. Consequentemente não tem essa de dormir 4 horas numa noite, não existe fazer as coisas de última hora. Tem trabalho, e o trabalho definitivamente enobrece o homem.
Eu moro na cidade em que Guimarães Rosa iniciou a sua busca pelo grande Sertão, bem do ladinho das veredas que ele apregoou pro mundo inteiro. Escuto o povo falar mineirês mais mineiro que qualquer Minas Gerais do Universo. E, surpreendentemente, adoro cada coisinha. Talvez por estar tão perto de Guimarães, tenha me tornado um cara mais confuso, confuso no dizer, mais simples no viver. Minha cabeça voa à altura de urubuir, e quero escrever o tempo todo. Quero dar pitaco em tudo, quero fingir de escritor, quero brincar de inteligente. Acima de tudo eu quero ser eu mesmo, coisa que, às vezes, na cidade grande, sem entender direito por que, a gente não consegue.
21.11.06
22/12/2005 - O cocô
O cocô
Poucas coisas na história são mais antigas que o cocô. Adão, antes de pedir ao criador uma companhia por estar sozinho, provavelmente também evacuou. E você leitor, acredita mesmo que aquele pedaço de maçã pecaminosa foi digerido e pronto? Até Jesus, e não tome isso por blasfêmia porque eu sou cristão, dividiu o corpo em forma de pão e, eu garanto, era figurativo, porque se Pedro não cagou aquele pedaço de pão eu abandono o jornalismo! É necessário, portanto, que todos concordemos que o mundo é formado por fauna, flora e cocô, é claro.
Defecar é uma arte que depende de forma direta da alimentação que precede o próprio ato. Uma boa macarronada acompanhada de uma salada leve é ideal. Um para dar volume, o outro consistência. A produção artística propriamente dita começa no momento em que o autor acomoda-se à latrina. De cócoras ou não, é de suma importância encontrar o ponto ideal de esforço, fazer pressão em demasia pode afetar a forma do bolo fecal. Em alguns segundos, ou minutos, dependendo até horas, a obra está pronta, inerte na água (ou na terra) pronta para ser fotografada, pintada ou esculpida (esta última não é muito indicada pela sujeira que pode vir a causar). É importante realçar que animais irracionais não têm consciência do ato de evacuar, portanto não fazem arte, abortam excrementos. Não se engane leitor ao pensar que homens e mulheres são diferentes ao sentarem-se na privada. É exatamente esse o momento em que se igualam e nossas semelhanças ficam comprovadas. Nossos aparelhos genitais podem ser diferentes, assim como nossos hormônios, mas na sentina somos todos humanos.
Você provavelmente está se perguntando porque perco o meu tempo escrevendo isso. Estou buscando meu lugar ao sol. Na era em que Claudinho e Bochecha são músicos, Carla Peres é dançarina, Leonardo DiCaprio é ator e um palhaço chamado Ronald é mais conhecido que um escritor chamado Franz, tentei a ironia. Estou fazendo arte.
Ps: Resolvi deixar o final como era, eu sei que o Claudinho morreu e, longe de mim querer maldizer o defunto, mas pra manter o nexo decidi deixar como era. E já nem acho o Di Caprio o pior ator do mundo, mas ai me lembrei que tinha colocado ele porque fazia tipo dez minutos que tinha assistido A Ilha, em que o rapaz é o ator principal, e decidi que ele continua merecendo o torra.