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17.1.14

Carta aberta para Gilberto Silva, uma história vista pelas arquibancadas

Caro Gilberto,

Tenho 31 anos, sou um atleticano na essência da palavra. Como atleticano, vivi todos os percalços que não precisam ser narrados aqui, você também os conhece (e viveu alguns).

Escrevo essa carta com o puro sentimento de gratidão.

Não tive muitos ídolos no futebol. Eu conheci a forma como as coisas são feitas nesse meio e isso me impediu, por muito tempo, de nutrir idolatria pelos grandes jogadores que passaram pelo Galo.
Admiro alguns, idolatro pouquíssimos.

Acompanhei a breve novela que foi a sua contratação junto ao América lá no começo do século (parece que faz uma eternidade que isso aconteceu). Queria muito que você fosse contratado. Eu tinha 18 anos na época, e compreendia mais o futebol pelo grito da arquibancada que pela tática dentro dele. Mas você me parecia o volante perfeito. Tinha postura, tinha velocidade, sabia passar a bola e não se afobava ao marcar os meias marrentos.

Quando você foi contratado e começou a jogar, ficou claro pra todo mundo que tínhamos acertado com o melhor primeiro volante da história recente do clube, ainda que tenha sido improvisado como zagueiro em diversas ocasiões.


Vi aquele belo time do Galo de 2001 perder uma semifinal para São Pedro, não para São Caetano, como conta a história. Sofremos juntos aquela derrota. 
Acompanhei sua primeira convocação para a seleção, assisti àquele jogo para torcer pelo Gilberto Silva, não pela Seleção. O resultado não foi dos melhores, mas me lembro de ficar satisfeito com a sua postura.

Lembro daquela desclassificação na Copa do Brasil para o Brasiliense, e nada me tira da cabeça que essa derrota e a do Campeonato Brasileiro foram daquelas para educar o atleticano.
Nosso time era bom. Foi o acaso, ou a intervenção divina, que nos tirou aqueles dois títulos. Não vamos reclamar. A história é o que é, e não adianta remoer o sofrimento.

Quando você foi convocado para a Copa de 2002, não muito tempo depois da desclassificação, eu comemorei. Como atleticano e como fã do jogador e do homem de bem que você sempre foi.

Durante a preparação, lembro de assistir, na academia, a notícia de que o Emerson havia lesionado o ombro no treino. Não falavam isso abertamente ainda, mas eu tinha certeza de que não havia outra pessoa para assumir esse lugar. Ninguém fica feliz com o infortúnio alheio, mas não posso negar que eu sorri.

A Copa, em si, é uma lembrança bonita na minha história de torcedor. Afinal, mais uma vez, eu assistia ao jogo para torcer pelo Gilberto Silva Futebol Clube. E o momento mágico dessa fase foi o gol do Fenômeno contra a Turquia, numa jogada essencialmente sua. Mágico.

Veio o título, aquela imagem histórica de você e Ronaldo beijando a taça, e em seguida a venda para o Arsenal.

Mesmo no dia em que você saiu do Galo, o meu sentimento de agradecimento era maior do que qualquer coisa. Afinal, foi com o dinheiro da sua venda que construímos aquele que é hoje um dos melhores centros de treinamento do planeta. Sempre me pergunto se você pensava nisso enquanto treinava em 2013, no Galo. Passava pela sua cabeça que era você um dos principais responsáveis pela estrutura do clube que tínhamos nos tornado?

O meu tempo como Gilberto Silva Futebol Clube não acabou. Acompanhei cada um dos seus passos no Arsenal. Vi você fazer por duas ou três vezes o melhor meio campo que já vi na vida. Na minha humilde opinião vai demorar para existir um meio campo defensivo como Gilberto e Vieira de novo na história do futebol. Quanto estilo. Vocês deveriam jogar vestidos de fraque e cartola, não de chuteira e calções.

Fiquei chateado naquela final da Champions em 2006. Depois do aperto com aquela lesão na coluna, você merecia ter levantado a taça. E perder com um gol do Beletti, seu companheiro de Galo, no último minuto de jogo. É muita maldade.

Foi nessa época que tive a chance de conhecê-lo, se é que podemos chamar essas oportunidades disso. Foram duas oportunidades rápidas. Eu trabalhando na Granja Comary no pré copa e me contendo vendo tantos gênios em campo.

Aquela era uma seleção que tinha Ronaldo, Ronaldinho, Adriano, Kaka, Robinho, Alex (ele estava nessa convocação), Juninho Pernambucano, todos no auge, isso pra ficar em quem jogava do meio pra frente. Não sai da minha cabeça os coletivos que assisti (que a névoa não atrapalhou, naturalmente), o tal Ronaldinho Gaúcho, maior do mundo na época, ia pra cima de todo mundo. Quando encarava Gilberto Silva, costumava tentar uma enfiada de bola ou um passe de lado. Nos 4 dias de Granja, não vi o Ronaldinho tentar driblá-lo nenhuma vez.

Assessor de imprensa em começo de carreira que era, precisei me segurar. Não podia sair tirando foto com todo jogador que passava. Decidi que ia fazer isso uma vez só. Já anoitecia, depois de atender toda a imprensa você dava uma entrevista para o Paulinho, seu assessor, que com a competência usual elaborava o material para disponibilizar para rádios e jornais que não tivessem jornalistas in loco. A foto que tirei com você ficou meio escura, e me arrependo todos os dias por ter usado naquela época um cabelo ridículo como aquele. Estragou a foto.

Depois disso, o Gilberto Silva Futebol Clube teve dois momentos difíceis para mim. O primeiro na Grécia, pela dificuldade em assistir aos jogos do Panathinaikos e o segundo na sua volta ao Brasil. Senti intensamente em vê-lo voltar a atuar no Brasil, mas pelo Grêmio, não pelo Galo. Eu não perdoo a nossa diretoria por não ter se empenhado em trazê-lo naquele momento. Vejo que diversos problemas que tivemos em 2011, inclusive um tal último jogo de campeonato brasileiro, teriam histórias diferentes se tivéssemos você no elenco.

Essa história pousa em 2013, no ano de dois mil e Galo. Vê-lo atuar de novo pelo meu time me enchia de satisfação. Os tempos já eram outros, eu sou um trintão, não sou mais aquele menino, mas o tempo não me desfez torcedor. Meu cartão de Galo na Veia me garantiu assistir você jogar ao longo do ano, e serei eternamente grato por esses dias (e por aquele detalhe, a taça da Libertadores).

Nós sabemos que os últimos anos da sua carreira como jogador estão aí. Eu não sei se você renovará com o Galo, se irá para outro clube, se encerrará a sua carreira. O que eu queria, ao escrever essa enorme carta, era dizer a você que nós estamos e estaremos aqui. Nós, que amamos futebol, mas que, principalmente, defendemos o bem, estamos e estaremos aqui por você.

Estivemos juntos por tantos anos, mesmo sem você saber, e estaremos para outros que vierem. O que você fez pelo Galo e pelo futebol são marcas na história, ficarão escritas e registradas. Em livro, em imagens e na internet. Mas o que você fez por mim e por diversas outras pessoas, isso fica marcado de outro jeito. Gente como você me faz acreditar que é possível ser correto em um meio corrompido. Gente como você me faz tentar ser melhor na minha profissão, mesmo que lá estejam os picaretas e os corruptos. Gente como você me faz lembrar que a nossa essência é para construir e não para destruir. Você ajudou a fazer uma geração de homens melhores (ao menos os que estavam atentos aos sinais). E por isso eu te agradeço, Gilberto.

Seja feliz. Você merece. O Gilberto Silva Futebol Clube não pendura as chuteiras, independente da sua decisão agora. Ele ficará ativo enquanto houver necessidade de plantar o bem em um mundo dúbio como o nosso.

Muito obrigado por tudo. Você é um ídolo para mim.
Alexandre Balaguer Abramo, membro fiel do Gilberto Silva Futebol Clube.

 

25.7.13

O ateu que encontrou Deus

Não acreditava em Deus. Coisa de bobo, necessidade de dar sentido em toda e qualquer situação da vida. 

Se alguém morre, “é que Deus quis”, se alguém cura “foi Deus que fez”. E assim era, e assim viveu, até uma noite de julho. O céu nublado trazia um tom estranho para o inverno de Belo Horizonte. Nas ruas, um movimento todo em preto e branco, listrado na vertical.

O dia que não passa, a hora que não chega. O trabalho que não rende, o patrão que não entende.

No caminho da arena, carro e van, ônibus e gente a pé, numa mistura estranha e improvável de tranquilidade e leveza com engarrafamento.

O barulho da arquibancada, o soar do tambor, o grito da garganta, rasgando a alma e transformando o peito em caixa amplificada.

Passa um tempo e nada. O nosso ateu, coitado, nem à oração pode recorrer. Recorre então a São Cuca e torce pra que troque certo, pra que a luz da razão e sabedoria de Ronaldinho transforme suor em gol.

GOL. Lágrima no olho, choro contido que deságua, peito sofrido que aceita e acredita,... Ele acredita. Eu acredito, eles todos acreditavam.

Mas ai um grandalhão com jeito de gladiador arranca na corrida, dribla o duas vezes salvador, e, com o gol aberto, cai no gramado com um escorregão.

No campo o suspiro de alívio, no coração do ateu: dúvida.
Afinal, não é possível. Ou é? Faz sentido. Ou não?

GOL. Lágrimas nos olhos, choro incessante, peito aliviado de quem acredita nos pés dos homens, mas não nas mãos de Deus.

Não?

Mas um gol tão no final. Isso lá é coisa de gente?

Foi quando veio tudo na cabeça, os pênaltis não marcados, o pé esquerdo do goleiro no último minuto, no último pênalti da vida, o placar improvável que é revertido, duas vezes, os pênaltis que viram vitória, o escorregão magistral do gol que não foi.


E aquilo virou luz. O choro de vitória foi também choro de revelação. Ele existe. Deus existe. Estava em cada bola, em cada gol, em cada defesa, em cada revés. Deus existe, ele entendeu, e atleticanamente orquestrou a história para que esse fosse o mais épico, mais incrível e improvável acerto de contas que o mundo do futebol já viu.

12.6.07

Gol de Mão

Turma, mais um texto meu que publico na coluna Chute a Gol do ótimo e completíssimo site www.showdebola.com.br


Até que ponto uma atitude dentro de campo pode ser considerada antiética, antidesportiva, digna de repulsa ou não? Lionel Messi, meia canhoto do Barcelona, fez um gol de mão. Tão incrivelmente parecido com o de seu conterrâneo e mestre das artes da bola Maradona quanto aquele outro que fizera contra o Getafe, driblando um time inteiro e fazendo o gol. Não que eu os esteja comparando em habilidade. Messi pode até ter feito um gol parecidíssimo com o de Maradona, mas estava jogando contra o Getafe, pelo espanhol, e não na copa do mundo contra a Inglaterra.

Um gol de mão... ele é imoral? Acredito que o esporte, nos moldes em que foi concebido na Grécia antiga, que é o berço dos nossos padrões atléticos de hoje, não aceita este tipo de artifício. Como substituição à guerra, o esporte deveria ser, antes de razão para enriquecimento, consumismo e estrelato, arte em forma de competição.

Por ter sido idealizado como competição em detrimento à guerra, acredito que o esporte deveria sim ter padrões éticos mais firmes. O leitor pode tentar argumentar que os mil e quinhentos anos que nos separam dessa ideologia que proponho fizeram do esporte algo diferente. Diferente sim, mas a sua raiz se mantém. Afinal, de que vale o futebol se não como exemplo de superação e beleza? De alternativa de vida a pessoas que nada teriam caso levassem uma vida normal? A maravilha do mundo da bola está nos exemplos, nos bons exemplos.

Mas, por um acaso, as botinadas de zagueiros e as matadas de jogadas pelos volantões brucutus que faziam Telê morrer de raiva não são atitudes tão antidesportivas como um gol de mão? Na minha opinião a resposta é sim, em partes. Quando a falta é feita com o objetivo único de atingir o jogador, esquecendo-se em absoluto a bola, o valor é o mesmo. É o anti-futebol, ponto final. Atitude que deveria ser punida de maneira drástica se esperamos que nossos netos continuem praticando tal esporte. Para o futebol, a moralização de seus praticantes e do mundo que gira a sua volta é questão de sobrevivência.

Messi não nos deu um bom exemplo. Repetiu uma atitude fútil de Maradona, que tantos maus legados deixou e ainda deixa. A malandragem não substitui a hombridade. E enquanto o jogador de futebol não perceber isso, continuaremos rumo ao fundo do poço moral que há tantos anos ronda o esporte. É essa a mensagem para a posteridade que deixaremos? Futebol e seus praticantes, chamados profissionais que, em campo, refletem as atitudes dos dirigentes que reinam fora dele.

2.5.07

Um clássico com a cara da polêmica

Mais uma do www.showdebola.com.br turma... abraços


Clássico é clássico, isso não se discute. Quando rivalidades seculares entram em campo, lógica, padrão, técnica ou previsões tornam-se totalmente volúveis. No último domingo, dia 29 de abril, os mineiros tiveram a chance de assistir a um desses jogos sem padrão, que beiram o inacreditável.

Em campo, Atlético e Cruzeiro voltavam a disputar uma final de campeonato mineiro depois de quatro anos do Galo longe das partidas decisivas. Dois elencos jovens, sendo que o do Cruzeiro já com alguns jogadores mais tarimbados mesclado com algumas promessas. O do Galo é praticamente o mesmo elenco campeão da série B, formado basicamente por jogadores oriundos das categorias de base e reforçado por Coelho, lateral direito escorraçado do Corinthians por Emerson Leão.

No primeiro tempo já era possível enxergar o que viria a acontecer. Paulo Autuori montou, imbecilmente, diga-se de passagem, um time ultra ofensivo que não agredia ninguém. Dois segundos volantes saindo pro jogo e dois laterais apoiando ao mesmo tempo. O trabalho de marcação sobrava para os zagueiros. Era óbvio que, cedo ou tarde, numa fugida dos rápidos Danilinho ou Eder Luis, alguém acabaria expulso ou sairia um gol. De princípio tivemos o expulso. Gladstone, depois de fazer uma falta em que era o último homem antes do goleiro Fábio, levou o vermelho, aos 29 minutos do primeiro tempo. Autuori colocou o juvenil Simões no lugar do atacante Nenê para compor a zaga.

Esperei que Autuori fosse raciocinar direito e que voltaria para o segundo tempo com um zagueiro a mais ou um volante a mais para segurar o resultado, já que jogava por dois empates. Caso optasse por manter o esquema de jogo, imaginei que tiraria Geovani, totalmente morto em campo. Pois o homem me tirou o Felipe Gabriel, que era o único que se movimentava.

O segundo tempo foi a confirmação de um jogo contra um time ingênuo que tem um treinador ou igualmente ingênuo ou efetivamente ruim. Começou com um gol relâmpago do Atlético. Só ai Autuori finalmente colocou em campo os jogadores que deveriam ter começado jogando. O jovem atacante Guilherme e o meia Maicossuel. Mas ai já era tarde demais. Teria sido mais produtivo ter colocado em campo dezoito volantes ou vinte e sete zagueiros, já que o 1x0 não era tão mal.

Mas o Cruzeiro não mudou o jeito de jogar. E Levir Culpi agradeceu. Danilinho deu um chapéu em Fábio e marcou o segundo, depois de passe precioso de Tchô por cima da zaga celeste. O terceiro saiu de um pênalti meio esquisito e o quarto coroou um dos clássicos mais estranhos que já vi na minha vida. Na saída de bola, o ótimo Araújo deu um passe errado para trás quando o esperto Vanderlei tomou a bola e bateu para o gol, fazendo o quarto. O gol não teria nada especial não fosse por uma situação inusitada. O goleiro Fábio andava, de costas para o jogo, em direção à bola do terceiro gol, ainda no fundo das redes.

Quatro a zero. E um gol com o goleiro de costas. Parece piada. Mas eu vi, foi real.

O Atlético não só tirou a vantagem do Cruzeiro como praticamente selou o título mineiro de 2007. No Cruzeiro os irmãos Perrela querem a cabeça de tudo e todos. Acusaram os juízes de comemorarem a vitória do Galo em uma pizzaria. E o leitor precisa concordar com eles, não? Afinal de contas, comer pizza domingo à noite é coisa de gente desonesta.

Hoje, quarta feira pós feriado, acabo de receber a notícia que Fábio se machucou no segundo gol do Atlético. A assessoria do Cruzeiro anunciou que ele teve uma lesão no ligamento cruzado posterior do joelho e que ficará de quatro a seis meses parado apesar de não precisar de cirurgia. Só posso gargalhar.

Gargalhar porque nunca vi ninguém com o ligamento cruzado lesionado jogar por quinze minutos sem mancar nenhuma vez. Gargalhar porque até no final de semana ninguém tinha ouvido nada de contusão. Só pode ser piada.

Quer afastar o cara? Afasta... Mas fala porque está fazendo. Não dá pra ficar inventando desculpas esdrúxulas pra resguardar o atleta. Ou então seja mais convincente. Manda o cara fingir em algum treino. Mas desse jeito não.

Fica a lição para todas as pessoas que acompanham futebol. Os times competitivos têm ido mais longe que os times com ótimo desempenho individual. Vale aprender com eles lições sobre respeito, obediência e vontade. Pois não se surpreendam se o São Caetano for campão paulista em cima do todo poderoso Santos. Vale lembrar que só o salário do Luxemburgo pagaria toda a folha do Atlético. Definitivamente dinheiro não ganha títulos. Ajuda, mas não resolve.

Alexandre B. Abramo, jornalista, assessor de jogador de futebol, achou a cena mais engraçada dos últimos anos o goleiro cruzeirense com duas bolas de gols nas mãos.

27.3.07

Os mil do Baixinho

Pessoal, mais uma da minha coluna "Chute a Gol", que escrevo com peridiocidade indefinida para o site www.showdebola.com.br
Quem quiser ler mais sobre futebol é só acessar o link colunas e ir em chute a gol que tem todos os meus textos lá... abraços



Eu nunca escrevi nada sobre Romário. Não me acho à altura dele, sem trocadilhos. Mas como deixar passar toda a polêmica e o alvoroço no mundo da bola em função dos seus mil gols? Como abandonar assunto tão fértil? Será que sou capaz de abandonar o desejo de falar ao digníssimo leitor em razão de minha ideologia? Não sou. O Romário merece mais que eu, mas vou escrever assim mesmo.

É bobagem dizer que ele foi o grande do seu tempo, o rei da grande área, o gênio do chute de bico. Ele foi isso tudo e mais, muito mais. Carregou o Barcelona nas costas, foi campeão do mundo quase sozinho, voltou ao Brasil para meter gol jogando por todos os grandes do Rio (menos o Botafogo), criou polêmica ao ser cortado na Copa de 98, chorou lágrimas suspeitas para ser convocado para o mundial de 2002, pintou o Zagallo na latrina enquanto Zico segurava o papel higiênico, foi para os Estados Unidos – deitou e rolou, foi para a Austrália – nem deitou nem rolou, ameaçou jogar pelo Tupi de Juiz de Fora – foi impedido pela FIFA.

Então o baixinho declarou a luta incessante pelo milésimo gol. Gol que é contestado pelas mídias mais sérias. Ele contabiliza alguns em amistosos sem juiz, outros como infantil e juvenil... E chegou ao número 999 no último fim de semana, jogando contra o Flamengo.

Tudo bem que ele exagera na contabilidade de tentos. Tudo bem que ele já não seja mais o Romário de outrora... mas, cá ente nós, nunca vi um jogador de 41 anos fazer gols como ele. Contra o Madureira foram três, um de cabeça, inclusive. Existem pessoas que dizem que o Romário só marca gols fáceis hoje em dia. Amigão, não existe gol fácil. O futebol profissional não deixa espaço para esse tipo de coisa. Se fosse assim, pelo menos os gols fáceis o Rômulo do Cruzeiro (que eu considero bom jogador) teria feito. Ou o Amoroso não passaria tanto tempo em branco pelo Corinthians. O Romário é um gênio, e precisa ser respeitado como tal.

A Placar deste mês saiu com uma informação inédita. Se forem contados apenas jogos oficiais, Romário está a exatos três gols de passar Pelé em números absolutos. O Baixinho merece o recorde.

Longe de mim defender o comportamento de Romário fora de campo, ou valorizar sua marra e o exemplo que ele é, não só para o profissionalismo no futebol como para os jovens de forma geral, mas é hora do Brasil se dobrar e assumir: Romário marcou quase três vezes mais gols que Maradona, deu mais chapéus em dois anos que o Zidane na carreira inteira, marcou mais gols de bico que o Adriano de qualquer jeito e nunca precisou de correr muito pra isso. Ele foi único. Porque decidiu chegar até os 41 jogando, e por isso contestado, não nos cabe avaliar os últimos seis anos de sua carreira e generalizar para todo o resto. É hora de assumirmos os feitos de um dos maiores da história, possivelmente o maior que eu vi jogar. Romário é grande, baixinho, eu sei, ainda assim, mais que grande, Romário foi gigante.

Alexandre Abramo, jornalista, assessor de imprensa de jogador de futebol e se dobra à genialidade do carioca, marrento e baixinho mais bem sucedido do Brasil.

19.12.06

Ronaldinho Gaúcho e a Ditadura da Mídia

Fabio Cannavaro, zagueiro do Real Madrid e capitão da seleção italiana de futebol é o melhor do mundo em 2006. Eleito pela FIFA, o defensor acumula os dois principais prêmios internacionais do futebol, esse e o da revista France Football, que sabe-se lá porque é tão respeitado.
Foram 498 pontos contra 454 de Zinedine Zidane e 380 de Ronaldinho Gaúcho. Eu fui o primeiro a pedir Cannavaro como o melhor da copa. Acho que ele foi soberbo, espetacular. Mas daí a ser eleito o melhor do mundo do ano vai-se um caminho enorme. É fácil desfazer, com dados, as opções da FIFA.
Cannavaro teve um bom primeiro semestre, a Juventus teve uma média baixa de gols sofridos. Mas ficou comprovado que não foi só competência de sua defesa. Envolvida em maracutaias que fariam Edílson Pereira de Carvalho corar, a Velha Senhora (como carinhosamente é chamada a Juventus) foi rebaixada para a segunda divisão do campeonato italiano. Fica claro que não foi só a competência de Cannavaro e Buffon que impediram os adversários de fazerem gols. O Segundo semestre de Cannavaro começou muito bem. Foi um mês raro, daqueles para se lembrar. Uma copa impecável. E aí veio o Real Madrid e atuações apagadas. Considero um ano um tanto irregular para se fazer de Cannavaro o melhor do mundo.
Quanto a Zidane parece piada ele terminar em segundo. Aliás, parece piada ele concorrer. Depois de um primeiro semestre sofrível em que o Real Madrid colecionou insucessos levando o veterano Zidane à reserva antes do meio de temporada, veio a Copa do Mundo. Zidane fez dois belos jogos, contra Espanha e Brasil, e deitou no berço esplêndido da fama para ser eleito o melhor da Copa. Ainda encerrou sua história no futebol com uma cabeçada no zagueiro italiano Materazzi. Expulso de campo declarou terminados seus dias no futebol. E não jogou mais no segundo semestre.
Fazer dessas duas figuras os dois melhores do ano é piada de péssimo gosto. Cannavaro ainda vá lá, façamos vistas grossas à interferência da arbitragem e dos próprios jogadores em campo, mas Zidane?
Tal decisão, em verdade, teria levantado pouca discussão se não tivesse ficado em terceiro lugar o gênio Ronaldinho Gaúcho. Com um ano quase impecável, só pôde ter sua jornada contestada no mês da Copa do Mundo. No resto do ano foi indiscutível. Foi campeão espanhol carregando o Barça nas costas, campeão da Copa dos Campeões sendo o principal jogador de sua equipe, voltou para o segundo semestre depois da copa com a mídia olhando de nariz torto para o seu talento e voltou a calar a todos com atuações fora do comum.
Tradicionalmente a mídia decide esse tipo de escolha. A pressão da imprensa internacional é forte em demasia. Foi assim com Zidane que foi endeusado depois do jogo espetacular que fez contra o Brasil na Copa. Ele é um dos marcos da história do futebol recente, eu concordo, mas teve um ano pífio, se analisado por inteiro. Quanto a Cannavaro, bastou ter a Itália campeã com um autêntico ferrolho, sem grandes estrelas aparentes do meio para a frente (Totti se machucou), para procurarem na defesa uma alternativa e tentar fazer justiça a todos os grandes defensores deixados de lado na história dos prêmios mundiais.
É uma pena, Ronaldinho foi o melhor do ano. Ao lado dele eu elegeria Kaká e Pirlo, talvez tendesse a escolher Makelele, sempre esquecido nos meios de campo em que atua. Cannavaro ficaria entre os dez melhores, Zidane não entraria no top 30.
Patético o papel pouco analítico da mídia futebolística mundial. Vendo decisões como esta, me convenço que a tendência persegue o meio. Se em Belo Horizonte vemos absurdos como Fábio sendo eleito melhor goleiro do ano em Minas, no nacional vemos Rogério Ceni sendo eleito o melhor jogador do campeonato e Wagner o melhor meia, é natural que Zidane seja o segundo melhor do ano. Quem não sabe nada de futebol sou eu.

Alexandre Abramo, jornalista radicado em Três Marias, assessor de imprensa de jogador de futebol acredita que um mundo que tem Ronaldinho Gaúcho não precisa de Cannavaro.

21.11.06

10/11/2006 - Futebol, paixão e o princípio do sofrimento

Dando um tempo nas matérias políticas, vai uma outra sobre futebol que tenho constume de escrever para o http://www.showdebola.com.br/

Futebol, paixão e o sentido do sofrimento


O futebol é uma paixão inexplicável. Eu, que sempre tentei ser ponderado em meus escritos aqui no Show de Bola, me deixo levar completamente pela paixão e faço um texto tendencioso, sem ondas e sem amarras. Eu sou atleticano, nasci assim, cresci vendo o Galo ganhar e adolesci vendo o Galo empatar, infelizmente adulteço vendo o Galo perder. Aliás, via o Galo perder.

O princípio do sofrimento

Sofrer pra mim não é nada demais, faz parte da minha história futebolística. Sou um ansioso comedor de unhas por natureza. Mas quando vi da arquibancada o empate entre o meu Galo com o Vasco, no ano passado, confesso que temi pelo pior. Apesar da reforma drástica feita no elenco por Lori Sandri, colocando em campo uma maioria absoluta de jogadores da base, dentre eles dois para quem eu fazia assessoria de imprensa, nem ganhando os quatro e empatando um dos cinco últimos jogos foi possível segurar o Galo na série A.
Com os olhos marejados vi a torcida cantar o hino, obstinada, sofrendo com o coração apertado e a alma ardendo, vendo o seu time querido ir parar na série B.
Pra você pode ser fácil leitor, talvez nunca tenha passado por isso. Mas o que esperar de um time formado por jovens jogando uma competição amarrada e truncada como a série B? Talvez vocês não tenham visto o Remo x Ituano em que foi registrada a magnífica marca de 80 passes errados e 81 faltas. Quais são as chances de um elenco com Danilinho, Marcinho, Marinnho, Luizinnho, vencer jogando contra o Náutico e os seus monstruosos zagueiros nos Aflitos? É muito inho num time só, certo? Errado.
Foi nesse quadro que passamos a acompanhar o Galo nas sextas, terças e sábados até a Copa, com o time encerrando a décima rodada mais próximo à zona de rebaixamento que da de classificação.
E, mais uma vez eu fitei a tragédia. Olhava o América Mineiro, glorioso em tempos remotos, equipe em que jogaram meu avô e bisavô, que fazia com o Atlético o clássico das multidões antes da era Mineirão, equipe que bateu com esfuziantes 17 x 0 o Palestra Itália, atual Cruzeiro, e via na história daquele time, agora na série C, sem forças para se reerguer, um lampejo do que poderíamos vir a ser um dia. Mas quiseram os deuses que o elenco de inhos, ao lado do turrão mas eficiente Levir Culpi chegassem à série A sem precisar do sofrimento com que conviveu o Grêmio na temporada de 2005.

Uma no depois, a redenção

Galo e São Raimundo fariam a partida que, caso combinada com um ou dois resultados, decretariam a volta efetiva ou quase efetiva do Galo à série A. Devido aos impasses da vida, estava em Três Marias, cidade do interior de Minas, no dia do jogo. Cheguei em BH às 20:15, com o jogo acontecendo às 20:30. Não é preciso de muita inteligência para saber que ao menos um quarto dos mais de 40 mil torcedores que iriam ao campo estariam presos no engarrafamento em volta do estádio. Sentei sozinho na Tribuna de Imprensa faltando 7 minutos para o fim do primeiro tempo e fiquei triste de não ter podido chegar mais cedo e estar no meu lugar de tradição, junto à torcida que é torcida de verdade.
E eu, que nunca fui pé quente, abri a porteira para os Gols de Galvão. Foram três dele e um de Marinho, fora a atuação impecável de Diego e Lima, os dois para quem faço assessoria de imprensa.
Quando o juiz apitou o final do segundo tempo os olhos marejaram de novo, como tinha acontecido quase um ano antes, contra o Vasco, mas dessa vez meu peito se estufava de alívio, estava acabado, o ano que vem seria de novo na série A. Sofrer é um estágio, e é só através do sofrimento que se concretizam fidelidade e paixão, e pude ver isso com os meus olhos cheios d´água em um Mineirão lotado numa noite de terça-feira.
Ao analisar hoje a emoção que sinto nesse tipo de situação, penso em como bobos nós, fanáticos por futebol, somos. Futebol é, definitivamente, a mais importante dentre as coisas menos importantes do mundo. Futebol não justifica violência, não justifica morte, não justifica corrupção. Na verdade acredito que nem valeria a pena existir futebol já que ele vem junto de todas essas variáveis. Mas existe, então aproveitemos.
Eu sinto, e pode me chamar de otimista, de irreal e estúpido, de fantasioso, de utópico, mas depois de adultecer vendo o galo perder, sinto que vou poder envelhecer vendo o Galo de novo campeão.

06/09/2006 - Leão, o Corinthians e os Deuses do mundo da bola/24 de Agosto de 2006

A minha mais remota recordação do técnico Leão (do técnico) é uma excelente passagem pelo Galo mineiro no meio da década de 90. Com um time mais ou menos, Leão puxou jogadores do júnior e montou um meio campo pegador formado por dois volantes que nunca mais jogaram nada em lugar nenhum, Edgar e Roberto. Roberto era daquele tipo carrapato, quem mandasse o garoto marcar, ele acompanhava até no vestiário. Leão trouxe também do júnior um habilidoso lateral esquerdo franzino mas talentoso e disse a ele: "garoto, você tem dez jogos pra me provar que pode jogar no time titular do Atlético, se até lá não jogar, você volta pro júnior". Existe uma versão que ele falou cinco jogos, outra que ele disse sete, mas acredito que ele teria sido um tanto quanto excêntrico caso tivesse feito essa última proposta. Um número torto assim não serve de referência pra nada. Esse lateral era Dedê, hoje jogador do Borussia Dortmund, já com 28 anos, até o começo do ano passado capitão do time. De lá pra cá confesso que deixei de acompanhar o Borussia e não sei como ele anda. No ataque um Marques renegado pelo Corinthians junto do Valdir Bigode. No gol um Cláudio André Taffarel já ídolo. Era pra ter sido um desastre. Não foi.
Não foi porque era um time aguerrido. E porque Leão era macho o suficiente para fazer as alterações necessárias. Dei essa volta toda para chegar ao Corinthians de hoje. Que o Leão faz bons trabalhos ninguém discute. Mas ninguém discute também que 50% das vezes ele gera tanto melindre no grupo que o trabalho vai por água abaixo.
Emerson Leão é o técnico do Corinthians e eu acho que vai dar certo. Primeiro porque ele fez a coisa mais óbvia que deveria ter sido feita há tempos, tirou a braçadeira de capitão de Carlitos Tevez. É tão óbvio assim por dois motivos. Primeiro pelo que Leão já alegou: como o cara pode ser o capitão de uma equipe sendo que ninguém, ninguém entende nada do que ele fala? Uns vão dizer que a linguagem do futebol é universal. Universal é a vaia, tirando isso o resto é balela. A outra razão é a atitude. Muita gente vai dizer que a atitude de Tevez em campo é exemplar, e é mesmo. Corre, chuta, dá combate. Mas isso não importa se ele só joga quando quer. Tevez é o Romário corinthiano. Ganha absurdos e alega motivos pessoais quando quer para não treinar, faltar jogo, e acaba sempre indo cantar cumbia na Argentina.
Eu não tenho nada contra argentinos. Inclusive tenho bons amigos de lá. Mas argentino marrento é a pior raça do mundo ao lado de pseudo-hippies sandalhudos (citação de Kabella). Por ser macho o suficiente para botar Tevez no lugar dele, por ser macho o suficiente para escolher o lado certo na briga Marcelinho x Mascherano, por ser macho o suficiente para deixar o goleiro Marcelo jogar, por ser macho o suficiente para dizer que pouco se importa com o que o Kia está pensando, por ser macho o suficiente para reintegrar ao grupo o Roger, Leão vai dar certo no Corinthians. Vai dar certo se os jogadores não tiverem ciúmes da pavonice dele e quiserem copiar. O elenco do Corinthians é mal equilibrado mas, mesmo assim, é um ótimo elenco.
Agora vem o ponto final e mais crítico de toda essa situação do Corinthians. Alegando problemas com Leão, Kia promete abandonar o comando da parceria e o futebol do Corinthians. Na prática muda muito pouco, já que ele não é nenhum gênio da cartolice mundial, só tem muito dinheiro. O crítico mesmo é que, pra mim, essa briguinha começa me cheirar a uma fuga programada da MSI. Talvez já tenham feito o que vieram fazer e, vendendo o Tevez, estejam satisfeitos. Continuariam com os direitos de vários jogadores do Corinthians. Mas ai é que a porca torce o rabo. A MSI não vai ficar pra sempre. A história de parcerias do Brasil diz isso. E no dia em que a MSI for embora o Corinthians está fulminado. Além da falta de dinheiro que antecedeu a parceria, o Corinthians tem um elenco inchadíssimo, caro, uma folha de pagamento astronômica e, não se enganem, a MSI não paga ninguém direito. Deve parcelas de compras de jogadores pra todo lado.
Que Leão seja feliz e queime muitos egos por ai. Eu prefiro um ego inflado de um homem de mais de 50 anos como o dele quando vem pra subjugar egos inflados de meninos de 21 anos que se julgam deuses do mundo.

06/09/2006 - Final da Libertadores 2006/16 de Agosto de 2006

Só há uma vantagem em ter duas equipes na final de um torneio importante em que seu time não esteja presente: é poder assistir a tudo de camarote e dar pitacos mais isentos que os da maioria. Hoje à noite jogam Internacional e São Paulo pela derradeira final da Libertadores. Seria só mais uma final bacana, se não fosse a atuação da imprensa paulista. Os caras decidiram que o São Paulo era a maior equipe do mundo e que tinha o departamento de futebol mais organizado que o do Manchester. Eu sou o primeiro a louvar a boa organização do time paulistano e de dizer que o time do São Paulo é sim diferenciado. Tem um bom e consistente elenco. Mas espera ai amigão, esse time do São Paulo está longe de ser a maior unanimidade do Brasil. É bom? É! Mas o time do Cruzeiro de 2003, por exemplo, era bem melhor. A equipe do Corinthians de 99 era muito melhor. O Palmeiras da Parmalat era trezentas vezes melhor. E o São Paulo do Telê, o primeiro principalmente, era anos luz melhor que esse. Até o time do Brasiliense do Péricles Chamusca me botava mais medo (ignore, exagero, é só modo de dizer).
Apesar de centroavantes (Aloísio e Ricardo Oliveira) de ótimo nível, o São Paulo desmonta completamente quando perde um dos seus ótimos volantes ou quando o Danilo joga mal. Mineiro e Josué são a alma do São Paulo, Danilo é a cadência, sem um dos três o São Paulo é um time comum. A zaga é boa, mas como o próprio Lugano gosta de falar ao se referir a jogar na Europa: “Jugar con tres és muy fácil, muy fácil... Nesta és bueno? Si, pero yo quiero ver Nesta jugar em la defesa de Palmeiras”. E que me desculpem, apesar de bater falta de maneira primorosa, Rogério Ceni está longe de ser a unanimidade que a imprensa paulista quer que ele seja. Rogério Ceni levou mais frangos no ano de 2006 que o Edinho levou na carreira inteira. Levou gol ao tentar dar toquinho por cima de atacante, soltou bola pro meio da área, não rebateu bola que veio em cima dele. Mas ai ele vai e mete um gol, dá uma entrevista bem articulada, fala três palavras difíceis e o Cleber Machado e o Galvão Bueno dizem que ele é Deus.
Mas voltando ao jogo, desconstruí o time do São Paulo para dizer que acredito que o Inter sai campeão hoje do Beira-Rio. Primeiro porque joga em casa, e tem muita força assim. Tem um centroavante tão bom quanto os do São Paulo (Fernandão) e um outro atacante que é acima da média, melhor que qualquer outro que o São Paulo tenha, que é o Rafael Sóbis. Tem um lateral esquerdo que apóia de maneira tão consistente quanto o Júnior (Jorge Wágner), um meio campo tão versátil quanto o do São Paulo, e o Tinga é muito mais regular que o Danilo. O Inter tem uma boa dupla de zaga, mas sua principal falha, na minha opinião, está no gol, no “de lua” Clemer. Capaz de salvar uma equipe durante um jogo, fazendo defesas espetaculares, Clemer às vezes se sai como um lambão e entrega o resultado para o adversário. Resta ao torcedor colorado torcer para ele estar em uma noite inspirada.
Não tiro a possibilidade do São Paulo se sagrar campeão de novo, mas confesso que ficarei levemente surpreso. Fica publicada minha opinião polêmica e que ela seja apedrejada caso se mostre furada, ou que fique como um alerta se acontecer o contrário. A crônica esportiva sabe menos de bola que o povo.

06/09/2006 - A Pós ressaca da Copa do Mundo09 de Agosto de 2006

Vamos tentar reativar esse blog mesmo com o pouco acesso à internet que tenho daqui. Vou repetir os meus textos que escrevi para o show de bola aqui. Como o nome mesmo diz, o show de bola é um site de futebol, então todos os textos têm essa temática. Depois escrevo alguma coisa pitacando amenidades quaisquer.



A ressaca vem. Ela sempre vem quando a gente exagera e passa do ponto. Nesse fatídico ano de 2006, passamos indubitavelmente do ponto. Exageramos na exaltação, julgamo-nos invencíveis, elegemos Adriano imperador, fizemos de Emerson um volante genial, transformamos o melhor do mundo, Ronaldinho Gaúcho, no melhor de todos os tempos, consideramos Juninho um salvador. Fizemos de dois laterais os baluartes da vitória para transformá-los, em seguida, nos maiores vilões da história. O resultado todos já sabem. Esquecemos que, do outro lado do campo, sempre tem outro time, seja o São Raimundo ou a seleção da Itália. E não importa a situação, quando as coisas estão com a maré virada, quem quer que esteja do lado de lá pode vencer. No nosso caso não era qualquer timeco, era a França. Mas isso é história velha, vamos voltar à bebedeira.
A ressaca veio, um gosto amargo na boca. Uma daquelas derrotas difíceis de engolir. E aí eu me lembro do pessoal do Monty Python que, numa cena clássica do filme Em Busca do Cálice Sagrado (aquele em que o rei Arthur cavalga sem cavalos batendo dois coquinhos com toda a sua comitiva), queria queimar uma bruxa de qualquer jeito. Era uma mulher com um nariz falso de cenoura e um chapéu meio torto. Um sábio, ao perguntar para o povo porque eles queriam queimar a mulher, recebeu a resposta de que ela era uma bruxa, então deveria ser queimada. Então ele levanta a questão, "mas como vocês sabem que ela é uma bruxa?" E a turba insana responde: "porque ela parece com uma". A mulher protesta e diz que lhe colocaram o chapéu e o nariz. Tirando os dois ela se parece com uma mulher normal, mas a aldeia insiste em queimá-la.
Essa alegoria serve para o futebol porque mostra como nós, a turba insana, agimos quando somos frustrados. Agimos como crianças que têm o brinquedo tomado. Queremos queimar nossas bruxas, queimamos Parreira, queimamos Roberto Carlos, queimamos Cafu, e só não queimamos o Ronaldinho Gaúcho porque sabemos que bastam duas semanas no Barcelona pra ele mandar todo mundo calar a boca. É a tradição do futebol brasileiro.
Só espero que essa derrota não nos torne amargos, porque não foi por jogar com um time com quatro jogadores de estilo ofensivo que o Brasil perdeu. Perdemos porque dos quatro, dois tentavam ocupar o mesmo lugar e os outros dois precisavam de jogar marcando no meio campo. Ronaldinho Gaúcho não jogou nada porque passou a maior parte dos jogos atuando atrás do Kaká, como homem mais recuado dos quatro. E isso o Galvão Bueno não falou, porque não sabe nada de futebol, é pitaqueiro. O pitaqueiro mais bem pago do Brasil mas, ainda assim, um pitaqueiro. Perdemos porque tínhamos que perder para o bem do futebol mundial. A nossa soberania suprema só beneficia a nós mesmos. Agora tudo vai ter mais graça. Perdemos porque tinha que ser assim.
Só a título de curiosidade, a cena do Em Busca do Cálice Sagrado termina assim: a mulher, que sem o disfarce não tem nada de bruxa, é tomada como bruxa após uma argumentação bastante "científica" aplicada pelo sábio e acaba indo para a fogueira.

10/07/2006 - Uma copa irritante

Uma copa irritante
Irritante não só pela eliminação do Brasil, não só pela chatice dos jogos da fase final (tirando o segundo tempo da prorrogação de Itália e Alemanha) mas, essencialmente, uma copa irritante pela cobertura jornalística. Zidane é um gênio, eu concordo, mas fizeram dele, além de um gênio, um gentleman e mais, muito mais. Com a cabeçada em Materazzi no finalzinho do jogo Zidane prova quem sempre foi. Um craque instável e desleal. Esse tipo de expulsão sempre foi característica do Zidane, principalmente nos tempos de Juventus. Mas não valia a pena falar. O mundo precisava de um craque pra copa do mundo, que não teve a atuação de craque nenhum. Craque mesmo foram Cannavaro e Pirlo. Só que não vale a pena falar. Zidane jogou um jogo nessa copa. Só contra o Brasil, nos demais se escondeu e jogou burocraticamente como nos últimos dois anos de Real Madrid. E disseram que ele fez uma copa irretocável. Fez 3 gols, é verdade, dois de penalti.
Fica a minnha revolta de eleger um cara como ele o grande nome da copa. Não foi. Ele foi mais um. No jogo contra o Brasil ele foi demais. Mas só. O Cannavaro fez a competição mais irreticável que já vi um zagueiro fazer. Mas como eleger um zagueiro o melhor da copa? Era dar ao mundo a declaração de como estamos carentes de um gênio que compre pra si a responsabilidade e arrebente sozinho com seus adversários. Mas eu não vou entrar na onda do Galvão Bueno. Melhor da copa tem que ser em todos os sentidos. No futebol e no comportamento. Afinal da contas o esporte nasceu para servir de substituição à violência, e não sua propagação. Vão aqui os meus votos contra o Zidane.
Minha lista de melhores do mundial
1 - Cannavaro
2 - Pirlo
3 - Makelele
4 - Materazzi
5 - Buffon / Lehmann
6 - Friedrich
7 - Maniche
8 - Vieira
9 - Ribery
10 - Figo
Definitivamente uma copa de zagueiros e volantes, mas isso o Galvão Bueno não fala. A propósito, pra mim o Ronaldo foi muito melhor que o Klose na copa, assim como o Zé Roberto foi muito mais útil que o Cristiano Robnaldo. O Podolski pra mim é muito pior que o Van Persie. E pra terminar de maneira bem polêmica, o Fábio Costa tá mais gordo que o Ronaldo.

03/07/2006 - O Ferrolho

Numa copa em que, apesar do meu sucesso em alguns bolões por ai, errei alguns prognósticos importantíssimos, decidi dar o meu derradeiro pitaco, para abalar as estruturas e ser chamado de ranzinza e retrógrado depois da copa. De França e Alemanha, pra mim, sobram Itália e Portugal.
Prevejo (e isso porque quero intensamente) uma final de copa Itália e Portugal.
Portugal porque a França, apesar de ter crescido contra o Brasil, só cresceu porque era contra o Brasil. A história de freguesia de Portugal com a França é longa, só Felipão pra quebrar isso. Nos últimos 7 jogos foram 7 derrotas. E da-lhe Deco nas costas deles. É a chance do nosso sangue brazuca se vingar, a última, diga-se de passagem.
Mas a minha previsão de Itália na final é simples. Se fala muito do time da casa, que é copeiro e tudo, falam muito de Portugal e sua gana de vencer, falam muito de Zidane e seu estilo, mas de todos os times que sobraram a Itália é a que tem o time mais consistente. Um goleiro fantástico - Buffon - uma zaga espetacular (apesar de estar ficando velha) que conta com Canavaro e Nesta , um meio campo de primeira linha com volantes do gabarito de Pirlo, Camoranese e Gattuso, é só escolher. Um meia como Totti e atacantes como Del Piero, Inzaghi, o ótimo Gilardino e o eficientíssimo (muito mais que o alemão Klose) Luca Toni. Além da volta de De Rossi na final, caso passe.
Meus amigos, aceitem, é o fim do joga bonito, é hora de apostar no “ferrolho”.

03/07/2006 - Derrota dolorosa

Antes fosse só mais uma derrota, que fossem dois gols do Zidane, mas perder com um gol do Henry é doloroso. Tive minha língua queimada, meu time desclassificado e meus sonhos hexacampeões desfeitos. Malditos... E a culpa é 50% do Roberto Carlos, 25% do Parreira e 25% do Cafu que fez a falta.
Pra mim essa derrota valeu pra umas duas coisas. Primeiro aliviou o meu trabalho de comunicação interna aqui na Votorantim em Três Marias porque nós éramos responsáveis por tudo referente a copa, de televisões nas áreas para os operadores assistirem até ornamentação da fábrica. Me aliviou essa derrota. Em segundo lugar porque aposentamos de vez o Cafu que me dava nos nervos. Depois ensinamos para uma geração inteira que existe uma coisa chamada derrota, e ela ocorre com frequência (nossa geração viu dois títulos mundiais e um vice campeonato, nós entramos na copa imaginando contra quem seria a final). Outro ponto é que arrancamos do Parreira a pecha de bom treinador. Ele é retranqueiro e cabeça dura, ponto final. Por último e não menos importante, ficou provado para toda a mídia brasileira que ela não sabe nada de futebol. Parreira fez todas as alterações pedidas, todas, e só no segundo tempo do jogo contra a França Galvão Bueno decidiu pedir que se trocassem os laterais. A imprensa mala se queimou, ponto pra nós.
Um outro detalhe, nada futebolístico, foi o fim do perigo de o futeol inebriar a mente do eleitor brasileiro, não nos esqueçamos, temos mais um puto de um presidente para eleger.
O saldo final é o gosto amargo da derrota, um time de gênios acabado, uma mídia desmoralizada e um perigoso tabu criado contra os franceses. Deus me livre de voltar a enfrenta-los, Brasil e França é quase um Galo e Ponte Preta.
Ps. Vale colocar aqui a frase do Lima, zagueiro do Galo que assistiu o jogo com a gente: "Deveriam dar um terno pra esse Zidane jogar bola, que classe!". Lima tem razão, que classe, quanto estilo, que jogador. Um dos maiores que vi jogar. ele merecia terminar a carrreira assim, e não na bosta como estava no Real Madrid, o filho da puta não jogava bola direito ha um ano...

30/06/2006 - Henry, um merda

Ontem o Henry, atacante da França deu uma declaração que me deixou com raiva. Ele disse que os brasileiros se destacam tanto no futebol porque ele, quando criança, estudava de 7h às 17h, segundo Henry, no Brasil, as crianças jogam bola de 8h às 18h. Mais que preconceituosa, a frase é um afronte. Um afronte porque é uma quase verdade, e quase verdades são dolorosas. É um afronte porque quase verdades não devem ser ditas por estrangeiros. Falem mal, mas falem de si mesmos. A quase verdade está em que realmente nossas crianças vão à escola menos do que deveriam. Pela distância das escolas até as suas casas ou por pura negligência dos pais (quando em cidades grandes, que têm vagas suficientes). Essa é uma realidade dura, triste, mas não tem absolutamente nada a ver com futebol. Henry tem a mesma imagem preconceituosa dos norte-hemisferistas-americanos (decidi adotar essa nomenclatura, discutimos o conceito depois) do Brasil, ou vivemos em árvores ou em periferias com campinhos de terra praticando futebol enquanto as mulatas sambam no meio de uma roda carregando uma bandeira.
Eu não me irrito usualmente com esse tipo de achaque. Tenho pena da ignorância alheia. Até porque, piada por piada, enquanto nossos jovens jogam bola o dia inteiro, os franceses, ao invés de irem à aula, queimam carros em Paris. A minha birra é com o Henry. É um safado, metido, estrela, imagem perfeita do que eu desprezo no futebol. Apesar de ser ótimo jogador, tudo o que ele ganhou na carreira foi nas costas de outrém. Nunca marcou um gol decisivo, sempre marcaram por ele. Zidane, Trezeguet, Vieira. E, maldição, a obrigação é dele que se acha tão gênio. Pois bem, que tenha a resposta em campo no sábado, que passe mais uma decisão sem marcar e que saia humilhado... E que Deus esteja me ouvindo, porque os deuses da bola já me abandonaram.